Automóvel, música e o imaginário brasileiro

Música, automóvel, desenvolvimento, liberdade e brasilidade: o que essas coisas têm em comum em um primeiro momento? A princípio, não vemos uma clara conexão. Apesar de parecer o início de uma anedota quando se juntam elementos díspares, no caso aqui é a deixa para se fazer uma pergunta sociológica: por que existe a preponderância, na percepção social, de que o automóvel e tudo o que o envolve é um instrumento que vai muito além de seu valor de uso? Por que, na percepção psicossocial brasileira, ele é visto como um instrumento de desenvolvimento e liberdade? São questões complexas que exigem análises multifacetadas. No caso, vamos nos ater à música como este instrumento.
A música, um dos principais elementos da cultura, é um meio pelo qual se comunicam percepções, valores, ancestralidades, pertencimentos e toda uma gama de sentimentos e noções de mundo que acabam por fazer dela uma ferramenta fundamental na construção do imaginário social. No Brasil, somos bombardeados, desde muito cedo, por canções que enaltecem o automóvel e seus significados. Podemos revisitar a Jovem Guarda e perceber, em O Calhambeque, o carro como instrumento fálico, passar pelo rock e a exaltação da liberdade em Vital e sua Moto, chegar ao forró e à emancipação da fealdade em Eu Era Feio Agora Tenho um Carro, ou ainda pelo sertanejo com Camaro Amarelo, que adocica seu dono. Enfim, existe todo um catálogo de músicas que exaltam o carro e, consequentemente, toda a cultura e as demandas dela emanadas.
Nesse contexto, além de criar o fetiche da mercadoria (a ideia de valorar um produto para além de sua funcionalidade – por exemplo, uma roupa de marca e outra similar, sem marca, causam percepções e sentimentos diversos), a exaltação dessa cultura acaba por pautar decisões políticas complexas. Essas decisões são guiadas por percepções psicossociais simplistas, transformando o automóvel em um instrumento de pressão sobre o Estado e os tomadores de decisão no sentido de sempre favorecer seu uso como meio de garantir liberdade e desenvolvimento. Ainda que isso não seja necessariamente verdadeiro, acaba por se tornar hegemônico dentro de nossa sociedade, criando e fortalecendo um contexto de pensamento único, no qual toda e qualquer contestação ou proposta diversa é, por princípio, desautorizada e deslegitimada.
Na nossa Amazônia, essa cultura nos coloca no risco de não mais o rio comandar a vida.
Por Marcelo da Silveira Rodrigues*
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RODRIGUES, Marcelo da Silveira. Civilização do Automóvel: a BR-319 e a opção rodoviarista brasileira.
SCHOR, Tatiana. Abram alas que eu quero passar: o desfile do automóvel na cidade de Manaus.
