Os rios voadores e a disponibilidade de sal na Amazônia

A BR-319 é localizada em uma ampla extensão da Amazônia central, o que providência uma oportunidade de entender melhor a relação entre o clima e a floresta. Por exemplo, sais são elementos químicos, e o mais comum na nossa dieta é o sódio, que é essencial para o crescimento e desenvolvimento da maioria dos animais. Os processos fisiológicos dos animais dependem muito desse elemento, mas para alguns animais que só comem plantas, encontrar sódio na dieta não é uma tarefa fácil. Para os animais que vivem próximo do mar, isto não é um grande problema porque os ventos sempre estão trazendo este sal para a terra, que chega através da chuva. Mas para os animais que vivem longe do mar, a situação é diferente.
Para entender a falta de sódio na maior parte da Amazônia nós precisamos primeiro falar sobre um famoso fenômeno climático conhecido como “rios voadores”. Eles se formam quando as áreas de floresta que estão mais perto do mar recebem a grande umidade que vem do Oceano Atlântico e a devolve para a atmosfera em forma de nuvens. Essas nuvens são empurradas na direção dos Andes, formando um verdadeiro corredor de umidade e de vapor d’água, que a floresta absorve e devolve para atmosfera em forma de nuvens.
Sem este serviço, a Amazônia que vemos atualmente seria parecido com um deserto. Os rios voadores não somente providenciam água para o oeste da Amazônia; quando as nuvens encontram os Andes, elas são desviadas para as áreas agrícolas mais produtivas do Brasil. Se os rios voadores fossem interrompidos pelo desmatamento, o efeito na economia do país seria devastador.
Os pesquisadores descobriram os rios voadores através de análises químicas complexas, mas nós podemos perceber facilmente os efeitos deles em uma viagem ao longo da BR-319. Na região leste, perto de Manaus, o sódio do mar trazido pelas chuvas ainda não é muito escasso. No entanto, seguindo viagem mais para o oeste, é possível perceber que há menos deste sal disponível. Um indicativo disso é a enorme quantidade de abelhas e outros insetos que são atraídos pelo suor das pessoas e, muitas vezes, atrapalham o trabalho dentro da mata. Como pessoas comem muito sal, seu suor é uma grande fonte alternativa do sódio para esses insetos. Essa fome insaciável pelo sal dos nossos corpos pode ser uma indicação de quanto a água da chuva foi reciclada pela floresta para cair onde nós estamos.
Texto integralmente reproduzido da seção “A BR-319 e o interflúvio Purus-Madeira: lições da estrada”, do livro “O interflúvio Purus-Madeira: lições sobre o funcionamento da floresta amazônica”.
